Um convite para conhecer autores africanos publicados no Brasil – Por Sheila Jacob

Chimamanda, Coetzee, Nadine Gordimer, Agualusa, Pepetela e Mia Couto são algumas possibilidades

 

Nos últimos anos, diversas e variadas obras africanas têm preenchido as prateleiras de nossas livrarias e nos apresentado um mundo muitas vezes tão desconhecido por nós. Quando comecei a estudar literatura angolana, em 2007, muita gente se questionava por que eu havia feito essa opção e havia aqueles que ainda me perguntavam se realmente existia literatura em Angola! Esses comentários são pequenas mostras do preconceito e do desconhecimento em relação à riqueza da história, da cultura e da produção artística e científica dos diversos países que formam o continente africano.

A boa notícia é que, de lá para cá, e cada vez mais, muitas obras têm sido divulgadas entre nós pelas grandes editoras. O alto número de livros publicados e a diversidade das histórias mostram que, sim, nesse e em outros países há literatura boa, de qualidade, que trata de questões específicas da história e do contexto sociopolítico local mas que também dialogam com o mundo. Basta citar autores como os sul-africanos Joseph Coetzee e Nadime Gordimer, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Literatura em 2003 e 1991, respectivamente. Além deles, é importante citar nomes como José Eduardo Agualusa, Pepetela, Ondjaki, Mia Couto, Paulina Chiziane, também publicados no Brasil, que escrevem em português e, portanto, podem ser lidos no original.

Vou aproveitar esse espaço para indicar uma autora que descobri recentemente e, quanto mais conheço, mais gosto. É a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Ela ficou bastante famosa pelas redes sociais devido ao seu vídeo “O perigo da história única”. Nele, trata da importância de que vozes diferentes se levantem, para que as histórias não sejam contadas apenas de um ponto de vista – normalmente branco, ocidental, pertencente aos centros de poder etc. Além de falar dos preconceitos dos quais é vítima por ser “africana”, ela conta, de maneira bem-humorada e com bastante ironia, como cresceu na Nigéria lendo contos de fada em que as princesas eram brancas, loiras, comiam maçã e brincavam na neve! Esse vídeo é realmente maravilhoso, está disponível no youtube e é muito fácil de ver.

Bem, mas estou aqui para falar sobre um de seus livros, os quais, aliás, foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Temos, traduzidos, “Hibisco roxo”, “Meio sol amarelo”, “Sejamos todos feministas” (outra intervenção maravilhosa e necessária!) e “Americanah”. Eu li, no final do ano passado, este último romance. Li não, devorei. Ele é enorme e não consegui parar. Conta a história da nigeriana Ifemelu, que resolve voltar para seu país natal após anos morando nos Estados Unidos. Nesse país estrangeiro, ela precisou desvendar uma série de preconceitos, estigmas e aquele mundo totalmente novo para ela. O bacana é que ela tem um blog, espaço onde publica suas reflexões, dúvidas e observações acerca da realidade que vai conhecendo, em uma inversão bastante interessante. Não é mais o estadunidense-ocidental falando sobre ela, mas sim o olhar dela sobre o “outro”, desconhecido, fascinante e intrigante, mas quem está aberta a conhecer. Lermos uma história com um ponto de vista diferente do comum é uma maneira de enfrentar o tal “perigo da história única” que ela trata naquela palestra a que me referi.

Além de ter como protagonista uma personagem bastante interessante, com reflexões pertinentes sobre o mundo atual e o encontro entre culturas distintas, o romance tem outros poderosos ingredientes, como ser uma bela, mas não linear, história de amor. Ao longo das páginas vamos nos envolvendo com seus namoros, paixões, frustrações, apostas, vitórias e derrotas que fazem parte da vida de qualquer jovem. Enfim, essa é apenas uma sugestão para aqueles que, assim como eu, acham que literatura é fonte de conhecimento, mas também de prazer. Sugiro que, quem puder, aprenda e se delicie com as histórias de Chimamanda e dos tantos outros autores africanos que nós, brasileiros, estamos tendo a oportunidade de conhecer.

Sheila Jacob
Formada em Comunicação Social/Jornalismo e Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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