EU JÁ VI ESSE FILME – Por Simone Mattos

Recebi um convite para fazer uma palestra sobre como será a escola do futuro. Mas para pensar sobre A ESCOLA DO FUTURO, precisei antes me fazer a seguinte pergunta: “De que escola estamos falando?”. Não há apenas uma escola, um único jeito de ser escola. E não me refiro aqui à metodologia que ela utiliza, mas à realidade que ela reflete. Porque as escolas não são exatamente produtoras de conhecimento, mas reprodutoras do status quo. Tem-se o tempo todo a impressão de já ter visto aquele filme.

Porque acredito na alegria e no brincar, decidi montar um breve roteiro cinematográfico para acompanhar minhas reflexões, procurando ilustrar assim, com leveza, o ofício de educar: apontar caminhos, sugerir ampliações, alimentar o desejo no outro e conhecer esse outro a quem se ensina.

Começo meu “festival de cinema”, convidando-os a se lembrarem do documentário “PRO DIA NASCER FELIZ”, uma obra que apresenta escolas brasileiras situadas em diferentes realidades geográficas, sociais, econômicas e culturais. No filme, pode-se ver uma diversidade fantástica de possibilidades de se estruturar espaços pedagógicos, todos eles sempre espelhando o cenário no qual estão inseridos. Há uma escola ao lado de uma favela no Rio de Janeiro, uma outra em um bairro da elite paulistana, uma escola no interior nordestino, para onde viajam seus alunos em busca de aprender, e há também escolas pequenas, localizadas perto das casas de seus alunos, no interior de Minas. E todas são escolas brasileiras de hoje! Todas representam, em sua multiplicidade, aquilo que se pode chamar de escola brasileira, que são tão diversas quanto a sociedade onde estão inseridas.

É importante que se observe que a escola é um lugar de aprender, mas não é o único, já que se aprende o tempo todo. E o que diferencia a escola dos outros espaços é, basicamente, a presença de um professor, a competência profissional do educador, a sua formação, o seu conhecimento teórico e técnico, a sua vocação, o seu comprometimento. A sala de aula de cada escola brasileira é então, para além de todas as outras diferenças, aquilo que cada professor puder construir, criar, produzir, incrementar, apesar das limitações do ambiente externo e/ou escolar. O professor é o guia e deve ser reconhecido e prestigiado como tal.

Sigo com meu festival cinematográfico, trazendo o filme “ESCRITORES DA LIBERDADE”, a história real de uma professora que fez o que muitos educadores também fazem no seu dia-a-dia, que é dar aulas que façam sentido, que façam a diferença. O filme conta a história de uma mulher recém-formada que recebe sua primeira turma com alunos repetentes, de postura inadequada e desrespeitosa, mas ela não desiste de seu grupo. Ela aproxima-se dele, acredita nele e desenvolve, através da escrita e da leitura, um trabalho transformador. A professora estava com sua escola inserida em um ambiente tenso de gangues, mas, pelo seu trabalho, os alunos adquiriram cultura e despertaram para o absurdo que é segregar, separar e discriminar, rompendo fortes preconceitos.

Cito ainda “SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS” para falar do amor aos livros, da importância da leitura em sala de aula, da importância de o professor ser um leitor, de ser admirado, de ser uma referência intelectual, e também espelho das emoções do outro, do melhor de cada aluno. As emoções são reveladas nas histórias que cada estudante escreve e estão nas histórias que já foram escritas por todos os autores. Como privar um grupo de alunos do contato com o livro? E por outro lado: Como oferecer a sua turma o contato com o livro, se o professor não for um leitor? É preciso cultivar em sala, hoje e sempre, o amor às palavras escritas, despertar para a força deste poderoso instrumento de comunicação, dar aos alunos o direito de voz, apresentando-lhes outras vozes com as quais possam se identificar, vozes apaixonadas e apaixonantes que, ao longo da história, foram vozes que falaram de temas eternos e universais, como: justiça, amor, solidariedade.

Na próxima sessão, mais um documentário brasileiro, o filme “JANELA DA ALMA”. O diretor reúne depoimentos de deficientes visuais e faz pensar sobre a cegueira real e a deficiência de não ver, tendo olhos para enxergar. Penso que a sala de aula do futuro precisará pôr fim ao poder da invisibilidade, que têm tantas vezes os alunos, o poder de desaparecer, o poder de estar e não existir. Lamentável! E esse poder lhes é atribuído pelos adultos da escola, pelos familiares, pelos colegas de classe, por eles mesmos e por uma sociedade que prega a impessoalidade. É preciso, na escola e no mundo, um olhar de comunhão, um olhar de profundo interesse, um olhar de quem se importa, de quem tem tudo a ver com o problema do outro. De que adianta ter olhos e não ver?

Para o próximo filme, as filas foram imensas, houve um frisson nas salas de projeção. “TROPA DE ELITE” pode ajudar em uma reflexão sobre a cópia, a autoria, a voz do narrador, os conteúdos textuais subjetivos, mas acima de tudo, sobre em que mundo vivemos, em que mundo cada professor ensina, para que ensina e para quem. Em que a sala de aula se relaciona com a violência urbana? Será que a violência já chegou as escolas ou esse espaço está imune a ela? O que é violência? Quero, infelizmente, lembrá-los de um caso gravíssimo, quando cinco jovens de classe média alta bateram e humilharam uma jovem mulher trabalhadora, empregada doméstica, que estava em um ponto de ônibus na Barra da Tijuca. Terá sido essa a primeira atitude violenta desses jovens? E o que a escola tem a ver com isso?

A naturalização da violência verbal, o fim das gentilezas e delicadezas, amplia as tensões das relações, traz a hostilidade para as salas de aula e transforma em inimigos íntimos aqueles que deveriam ser parceiros. Para onde isso vai nos levar? Eu não faço a mínima ideia!

Sugiro revisitar os filmes: “PROMESSAS DE UM NOVO MUNDO” e “ZUZU ANGEL”. O primeiro, pelo encontro. No encontro pode-se entender e desejar a paz. E o segundo, para não que nenhum brasileiro se esqueça de que por aqui existiram torturadores, que deixaram dor e sangue espalhados e ainda silenciaram o povo, para que findasse a comunicação, a expressão e a autoria.

Termino convidando-os para mais dois filmes: “GANDHI” e “IRMÃO SOL, IRMÃO LUA”. Ambos com o objetivo de que seja possível olhar para trás e reconhecer bons exemplos de força, pois é pela cultura e pela informação que serão feitas escolhas conscientes para a construção do futuro. Ambos estão aqui citados porque são exemplos de amor, simplicidade e preocupação com o outro, matéria prima fundamental para a construção de uma nova escola, dentro de um novo mundo.

Meu futuro é agora! E eu o faço todos os dias, travando uma luta silenciosa contra a opressão, contra a desinformação, contra a mentira, contra os preconceitos, contra a agressividade nas relações e a favor das crianças e dos adolescentes, a favor da saúde, a favor do amor, da liberdade e do desejo legítimo de cada um de ser o que é, porque o filme de cada um de nós está com o roteiro incompleto, esperando a próxima fala.

Simone Mattos
Professora, comunicóloga, psicolinguista, psicopedagoga e terapeuta de casal e família.

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